Sobre o etnônimo Karajá

Em geral, lingüistas e etnógrafos que trabalham com os povos de língua Karajá (Xambioá, Javaé, Karajá do Sul e Karajá do Norte) concordam quanto à origem deste etnônimo: o termo "karajá" seria de origem [Tupi-]Guarani, referindo-se ao macaco guariba (ou bugio). (Os Karajá se auto-denominam iny [i'nã].)

Este termo tem uma distribuição razoavelmente ampla no Brasil Central; além de ser usado por outros povos indígenas, bem como pelos não-índios, para se referir aos Karajá, o termo é também usado para se referir aos Kayapó; assim, os Tapirapé chamam aos Karajá de [kãrã'txã] e aos Kayapó de [kãrãtxã'o] (literalmente, 'Karajá grande'); curiosamente, os Karajá também se referem aos Kayapó por um termo cognato deste, [krala'hu ~ karala'hu]. Este último termo — sob a forma Gradaú ou Gradahú — ocorre freqüentemente na literatura histórica do Centro-Oeste (trabalhos clássicos como os de Cunha Mattos e Silva e Sousa, por exemplo) como denominação de vários grupos étnicos pouco conhecidos (Ribeiro 2001).

Acontece que o termo "Karajá" não parece ser encontrado, na acepção de 'guariba', em nenhuma das línguas de povos Tupí-Guarani com os quais tanto os Karajá, quanto os Kayapó, teriam estado em contato. Em Tapirapé, por exemplo, é usado exclusivamente como etnônimo (Walkíria Praça, c.p.). De fato, em um artigo esclarecedor, Aryon Rodrigues (vide referências abaixo) sugere que este termo para 'guariba' seria restrito às línguas Tupí-Guaraní dos subgrupos I (Guarani, etc.) e II (Sirionó, etc.). Não ocorreria, assim, no subgrupo III, ao qual pertenciam o Tupinambá e o Tupi Austral, que deram origem às línguas gerais Amazônica e Paulista, respectivamente.

Uma possibilidade que me ocorreu, inspirada pelo artigo de Rodrigues, é que o etnônimo "Karajá" teria sido, afinal, difundido através de falantes da Língua Geral Paulista — os bandeirantes, que deixaram uma trilha de termos Tupí-Guaraní tanto na toponímia do Centro-Oeste, quanto no léxico de línguas indígenas da região, como o próprio Karajá (Ribeiro 2001) e o Boróro (Viana 2003). Tal hipótese fundamenta-se em um fato notável apontado por Rodrigues (p. 6): "Embora a língua dos Tupinambá e a dos Tupí sejam muito próximas, a dos últimos compartilha com II certas características que não se encontram em Tupinambá."

Estou, assim, investigando a hipótese de que o termo "Karajá" teria de fato ocorrido em Tupí Austral (e, conseqüentemente, na Língua Geral Paulista), talvez por influência de línguas dos subgrupos I e II. Alguém poderia me sugerir evidências que ajudem a confirmar ou refutar esta hipótese?

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Referências:

Ribeiro, Eduardo Rivail. 2001. Empréstimos Tupí-Guaraní em Karajá. In Revista do Museu Antropológico, v. 5/6, pp. 75-100. Goiânia: Editora da UFG.

Rodrigues, Aryon. (sem data). Hipótese sobre as migrações dos três subconjuntos meridionais da família Tupí-Guaraní. Disponível em http://geocities.yahoo.com.br/lviz56/hipotese.pdf

Viana, Adriana Soares. 2003. Sobre a língua Boróro. In Anais do II Encontro Nacional do GELCO, vol. 1, pp. 42-48. Disponível em http://gelco.crucial.com.br/volume1.pdf

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